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Transtorno de Personalidade Borderline: muito além dos rótulos

Jandré Gomes Lopes de Souza · CRP 06/2159097 min de leitura

Série editorial · Psicologia Baseada em Evidências — Psicólogo Jan Lopes — CRP 06/215909.

Ilustração editorial abstrata em tons grafite, bege e dourado, com horizonte iluminado representando acolhimento e esperança

Quando alguém recebe o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), é comum que, além do sofrimento provocado pelos sintomas, tenha de enfrentar outro desafio: o preconceito.

Infelizmente, ainda circulam muitos mitos sobre esse transtorno. Algumas pessoas acreditam que quem tem TPB é “manipulador”, “dramático” ou “difícil”. Essas ideias simplificam uma condição extremamente complexa e acabam aumentando o sofrimento de quem já convive diariamente com intensa dor emocional.

O Transtorno de Personalidade Borderline é um transtorno reconhecido pela ciência e descrito nos principais manuais diagnósticos internacionais. Ele é caracterizado, principalmente, por dificuldades na regulação das emoções, impulsividade, medo intenso de abandono, instabilidade nos relacionamentos, alterações na percepção de si mesmo e sentimentos persistentes de vazio.

No entanto, compreender apenas os sintomas não é suficiente para entender quem vive com esse diagnóstico.

Não é falta de vontade. É vulnerabilidade emocional.

As pesquisas mostram que pessoas com TPB apresentam uma vulnerabilidade biológica maior para responder emocionalmente aos acontecimentos. Isso significa que suas emoções costumam surgir com mais intensidade, permanecer por mais tempo e ser mais difíceis de regular.

Além dessa predisposição biológica, muitos pacientes cresceram em ambientes marcados por invalidação emocional, negligência, críticas constantes, conflitos familiares ou experiências traumáticas. Isso não significa que todas as pessoas tenham vivido abusos graves, mas muitas aprenderam, desde cedo, que seus sentimentos eram ignorados, minimizados ou considerados exagerados.

A combinação entre vulnerabilidade biológica e ambiente invalidante é um dos modelos mais aceitos atualmente para explicar o desenvolvimento do transtorno.

Muito além dos comportamentos

Frequentemente, as pessoas enxergam apenas os comportamentos mais visíveis, como impulsividade, crises emocionais ou conflitos interpessoais. Porém, esses comportamentos geralmente representam tentativas desesperadas de aliviar um sofrimento emocional extremamente intenso.

Em alguns casos podem ocorrer episódios de automutilação, uso abusivo de substâncias, gastos impulsivos ou outras estratégias inadequadas para reduzir a dor. Embora tragam alívio momentâneo, essas atitudes costumam aumentar o sofrimento no longo prazo.

É importante compreender que esses comportamentos não definem a pessoa. Eles refletem o quanto ela está sofrendo naquele momento.

Pessoas com TPB também possuem muitas qualidades

Existe outro aspecto que raramente recebe atenção.

Muitas pessoas com TPB demonstram elevada sensibilidade emocional, grande capacidade de empatia, criatividade, intensidade afetiva e forte dedicação às pessoas que amam.

Quando aprendem habilidades para compreender e regular suas emoções, essas características podem tornar-se importantes recursos pessoais e favorecer relacionamentos mais saudáveis e uma vida mais equilibrada.

Por isso, reduzir alguém ao seu diagnóstico é um erro. O transtorno faz parte da história da pessoa, mas nunca representa toda a sua identidade.

Há tratamento e há esperança

Nas últimas décadas, os avanços científicos transformaram a forma como o TPB é compreendido e tratado.

Entre as abordagens com maior evidência científica está a Terapia Comportamental Dialética (DBT), desenvolvida pela psicóloga Marsha Linehan. A DBT ensina habilidades para lidar com emoções intensas, desenvolver tolerância ao sofrimento, melhorar os relacionamentos e praticar atenção plena no cotidiano.

Outras abordagens baseadas em evidências também podem fazer parte do tratamento, sempre respeitando as necessidades individuais de cada paciente.

É importante destacar que o tratamento vai muito além da redução dos sintomas. O objetivo é ajudar a pessoa a construir uma vida que considere significativa, fortalecendo sua autonomia, seus vínculos e sua qualidade de vida.

Precisamos combater também o preconceito

O estigma ainda é uma das maiores barreiras enfrentadas por pessoas com TPB.

Comentários como “ela faz isso para chamar atenção” ou “ele nunca vai mudar” não apenas são incorretos, como podem afastar quem mais precisa de ajuda.

Assim como qualquer outro transtorno mental, o TPB merece compreensão, acolhimento e tratamento baseado em evidências.

Quando substituímos julgamentos por conhecimento, damos um passo importante para reduzir o sofrimento e promover uma sociedade mais humana.

Sobre o autor

Jandré Lopes é psicólogo (CRP 06/215909), especialista em Psicopatologia e Terapias Cognitivo-Comportamentais, com formação em Terapia Comportamental Dialética (DBT), Treinador de Habilidades em DBT e capacitação no Protocolo CAMS para avaliação e prevenção do comportamento suicida. Atua no atendimento de adultos, com foco em transtornos de humor e Transtorno de Personalidade Borderline.

Referências

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Association Publishing.
  • World Health Organization. (2022). International Classification of Diseases 11th Revision (ICD-11).
  • Linehan, M. M. (1993). Cognitive-Behavioral Treatment of Borderline Personality Disorder. Guilford Press.
  • Linehan, M. M. (2015). DBT Skills Training Manual (2nd ed.). Guilford Press.
  • Gunderson, J. G. (2018). Handbook of Good Psychiatric Management for Borderline Personality Disorder. American Psychiatric Association Publishing.
  • Paris, J. (2018). Stepped Care for Borderline Personality Disorder. Academic Press.

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Como este conteúdo foi elaborado

Este artigo foi elaborado com base em literatura científica, diretrizes internacionais e conhecimentos atualizados da Psicologia baseada em evidências. Seu objetivo é oferecer informação confiável e acessível, sem substituir avaliação, diagnóstico ou tratamento individualizado.

Jandré Lopes

Psicólogo – CRP 06/215909

Especialista em Psicopatologia e Terapias Cognitivo-Comportamentais. Formação em Terapia Comportamental Dialética (DBT), Treinador de Habilidades em DBT e capacitação no Protocolo CAMS para avaliação e prevenção do comportamento suicida. Atua no atendimento de adultos, com foco em transtornos de humor e Transtorno de Personalidade Borderline.

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Autor

Jandré Gomes Lopes de Souza

Psicólogo · CRP 06/215909 · Guarulhos/SP

Psicólogo clínico com especialização em Psicopatologia e Terapias Cognitivo-Comportamentais, formações em Terapia Comportamental Dialética (DBT) e no Protocolo CAMS. Atende adultos de forma presencial em Guarulhos/SP e online.

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