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Artigo | Transtorno de Personalidade Borderline

Quando o mundo parece distante: episódios dissociativos no Transtorno de Personalidade Borderline

Como reconhecer, compreender e cuidar da dissociação relacionada ao estresse — sem confundi-la com psicose, desatenção ou “manipulação”

Jandré Lopes • Psicólogo • CRP 06/215909

Psicologia baseada em evidênciasLeitura aproximada: 24 minutos

Revisão científica: evidências consultadas até setembro de 2026.

Ilustração editorial abstrata em azul-ardósia, cinza e creme com brilho dourado suave, sugerindo a sensação de distanciamento da realidade nos episódios dissociativos.
IDEIA CENTRAL — No Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), a dissociação costuma aparecer como uma ruptura temporária na integração da consciência, da percepção, da memória, das emoções, do corpo ou da identidade, frequentemente durante estresse intenso. Não é “frescura”, mentira ou escolha deliberada. Também não confirma, por si só, TPB, trauma, psicose ou transtorno dissociativo. Compreendê-la exige avaliar o episódio, o contexto e o funcionamento da pessoa ao longo do tempo.

Imagine alguém que, durante uma discussão, continua olhando para a outra pessoa, mas passa a ouvi-la “como se estivesse muito longe”. O ambiente parece artificial, o próprio corpo fica estranho e as emoções desaparecem. Depois, algumas partes da conversa estão nebulosas. Para quem observa de fora, ela parecia fria, indiferente ou distraída. Por dentro, porém, a experiência foi outra: o contato com o presente ficou parcialmente interrompido.

Esse fenômeno pode ocorrer no TPB e recebe o nome de dissociação. A palavra descreve um conjunto amplo de experiências, não uma única sensação. Algumas pessoas relatam desrealização; outras, despersonalização, anestesia emocional, redução da percepção da dor, sensação de não habitar o próprio corpo ou lacunas de memória. Há ainda quem só perceba o episódio retrospectivamente, ao notar que perdeu parte de uma conversa ou executou tarefas “no automático”.

Falar de dissociação exige duas precauções. A primeira é não banalizar: estados intensos podem comprometer julgamento, memória, aprendizagem, segurança e participação na psicoterapia. A segunda é não transformar toda distração, mudança emocional ou esquecimento em dissociação. O diagnóstico diferencial inclui respostas comuns ao estresse, ataques de pânico, uso de substâncias, privação de sono, transtornos relacionados ao trauma, epilepsia, enxaqueca, síncope e outras condições médicas ou neurológicas.

1. O que é dissociação?

Dissociação é um termo usado para descrever uma descontinuidade ou ruptura em funções que normalmente operam de forma integrada, como consciência, atenção, percepção, memória, identidade, emoção, representação corporal e controle do comportamento.[1–4] Ela pode variar de experiências leves e transitórias até manifestações persistentes, incapacitantes e associadas a transtornos dissociativos.

Nem toda dissociação é patológica. Absorver-se em um livro, dirigir por um caminho conhecido e perceber que pouco se recorda de trechos rotineiros ou “desligar” por alguns instantes quando se está exausto podem se aproximar do polo não clínico do continuum. A relevância clínica aumenta quando os episódios são frequentes, intensos, involuntários, provocam sofrimento, prejudicam a vida, geram lacunas importantes de memória ou expõem a pessoa a riscos.

Também é útil distinguir:

Essas categorias ajudam a organizar o fenômeno, mas não são caixas perfeitamente separadas. Uma mesma pessoa pode apresentar mais de uma forma, e os instrumentos científicos não definem dissociação de maneira idêntica.

2. Qual é a relação entre dissociação e TPB?

No modelo categorial do DSM-5-TR, “ideação paranoide transitória relacionada ao estresse ou sintomas dissociativos intensos” compõe um dos nove critérios do TPB.[1] Isso significa que:

  1. a dissociação pode fazer parte do quadro clínico;
  2. ela não é obrigatória para o diagnóstico;
  3. isoladamente, não confirma TPB;
  4. o mesmo critério contempla fenômenos paranoides transitórios, que não são sinônimos de dissociação;
  5. o diagnóstico depende de um padrão persistente e abrangente, com sofrimento ou prejuízo, e não de um episódio isolado.

Na CID-11, os transtornos da personalidade são classificados principalmente pela gravidade e por domínios de traços. O “padrão borderline” pode ser acrescentado como qualificador, e inclui manifestações dissociativas ou psicóticas transitórias em situações de elevada ativação afetiva.[2] Portanto, os dois sistemas reconhecem a conexão entre estresse intenso e alterações temporárias da experiência.

Revisões relatam que sintomas dissociativos transitórios podem ocorrer em até cerca de 80% de amostras clínicas de pessoas com TPB.[3,5] Esse número não deve ser interpretado como uma prevalência universal: os resultados variam conforme o instrumento, o ponto de corte, o tipo de serviço, as comorbidades e a definição empregada. “Ter alguma experiência dissociativa” também não equivale a preencher critérios para um transtorno dissociativo.

Não existe, nos sistemas diagnósticos atuais, um “subtipo dissociativo do TPB” oficialmente estabelecido. Há pessoas com TPB e dissociação mínima, episódica ou intensa; outras apresentam simultaneamente TEPT, TEPT complexo ou um transtorno dissociativo. O mapa diagnóstico precisa refletir essa heterogeneidade.

3. Como um episódio pode ser vivido?

A experiência varia, mas pode incluir:

Despersonalização

Sensação de estar separado de si mesmo, observar-se de fora, não reconhecer plenamente a própria voz, o rosto ou os movimentos, ou sentir o corpo como estranho, mecânico ou distante. Em muitos casos, a pessoa reconhece que se trata de uma sensação — isto é, sabe que não saiu literalmente do corpo.

Desrealização

O ambiente parece artificial, nebuloso, sem profundidade, distante, silencioso demais ou semelhante a um sonho ou filme. Pessoas e objetos continuam sendo reconhecidos, mas perdem a familiaridade emocional.

Anestesia ou desligamento emocional

Emoções que estavam muito intensas parecem desaparecer abruptamente. Isso pode ser confundido com indiferença. Na realidade, a pessoa pode ter passado de hiperativação para um estado de desligamento.

Alterações corporais e da dor

Podem ocorrer entorpecimento, redução temporária da dor, sensação de leveza, rigidez, partes do corpo “não pertencendo” à pessoa ou dificuldade de perceber sinais internos. Estudos em TPB relacionam dissociação aguda a analgesia e alterações na percepção de pertencimento corporal, embora os mecanismos ainda não estejam completamente esclarecidos.[3,6]

Alterações de atenção, tempo e memória

O tempo pode parecer lento, rápido ou descontínuo. A pessoa pode ter dificuldade de registrar o que está acontecendo, acompanhar uma conversa ou recuperar partes do episódio. Uma memória fragmentada não prova que ocorreu amnésia dissociativa; ansiedade extrema, intoxicação, privação de sono, trauma craniano e crises neurológicas também prejudicam a codificação da memória.

Automatismo e redução da sensação de agência

A pessoa continua realizando ações, mas sente que elas acontecem “sozinhas” ou que não está totalmente presente. Isso não significa necessariamente perda completa de controle, nem demonstra a presença de diferentes identidades.

Alterações da identidade

Pode haver confusão sobre quem se é, sensação de incoerência ou estranhamento em relação a pensamentos e sentimentos. No TPB, isso pode se sobrepor à perturbação da identidade, mas os fenômenos não são idênticos. Mudanças rápidas de autoimagem não bastam para diagnosticar Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI).

4. Quanto tempo dura?

Não há duração mínima ou máxima específica para um “episódio dissociativo no TPB”. O DSM-5-TR e a CID-11 descrevem a manifestação como transitória e relacionada ao estresse, mas não definem um cronômetro diagnóstico.[1,2]

Na prática, estados podem durar segundos, minutos ou horas. Algumas pessoas relatam efeitos residuais por mais tempo. Episódios prolongados, recorrentes fora de situações de estresse, acompanhados de grandes lacunas de memória, perda de consciência, movimentos involuntários ou alteração persistente da realidade exigem avaliação mais ampla. Fixar um limite rígido produziria falsa precisão e poderia atrasar a investigação de comorbidades ou causas médicas.

Mais importante que contar minutos é perguntar:

5. Por que o estresse interpessoal tem tanto peso?

O TPB envolve vulnerabilidade à desregulação emocional, sensibilidade a sinais de rejeição, dificuldades na experiência de si e instabilidade relacional. Quando a ativação ultrapassa a capacidade momentânea de processamento, a dissociação pode funcionar como uma resposta automática de afastamento da experiência interna.

Estudos de monitoramento no cotidiano encontraram associação entre aumento do estresse e aumento da dissociação, mais acentuada em grupos com TPB do que em controles clínicos e saudáveis.[7] Entre os gatilhos possíveis estão:

O gatilho não precisa parecer grave para quem observa. O sistema nervoso responde ao significado atribuído à situação, construído pela história, pelo aprendizado e pelo estado atual. Isso explica a reação; não determina automaticamente que toda interpretação feita durante a crise seja correta, nem elimina responsabilidade por reparar danos depois.

6. Dissociação é sempre consequência de trauma?

Não. Experiências adversas, sobretudo quando precoces, repetidas e interpessoais, estão fortemente associadas à dissociação e ao TPB. Modelos ligados ao trauma propõem que o desligamento pode reduzir, no curto prazo, o impacto de uma experiência avassaladora e depois se generalizar para outros contextos.[3]

Entretanto, trauma não é condição necessária nem suficiente. Nem todas as pessoas com TPB relatam trauma; nem todas as pessoas traumatizadas desenvolvem TPB ou dissociação patológica. Temperamento, aprendizagem, apego, contexto familiar e social, sono, fatores cognitivos e vulnerabilidades biológicas podem interagir. A etiologia continua em debate, e lembranças não devem ser induzidas ou tratadas como prova sem confirmação independente.[3]

Uma formulação clinicamente responsável evita dois extremos: ignorar a história traumática e presumir uma narrativa traumática específica porque houve dissociação.

7. O que acontece no cérebro e no corpo?

A dissociação não é explicada por uma única área cerebral, um neurotransmissor isolado ou uma simples “falta de serotonina”. Ela parece envolver alterações dinâmicas em redes que integram saliência, emoção, atenção, memória, percepção corporal, autorreferência e controle cognitivo.

Redes corticolímbicas e temporoparietais

Revisões de neuroimagem apontam, de forma preliminar, alterações na interação entre amígdala, córtex cingulado anterior, giro frontal inferior, regiões pré-frontais mediais e dorsolaterais e áreas temporoparietais.[8,9] Essas regiões participam da detecção de relevância emocional, modulação da ativação, memória de trabalho, percepção corporal e construção da experiência de si.

Em um pequeno estudo experimental com mulheres com TPB, a indução de dissociação foi associada a pior desempenho em memória de trabalho, menor reatividade bilateral da amígdala e mudanças de conectividade com regiões visuais, temporais, frontais e parietais.[10] É um achado importante, mas não um “exame do TPB”: a amostra era pequena, o contexto era experimental e neuroimagem não diagnostica dissociação em uma pessoa individual.

Ativação intensa e desligamento

Alguns modelos descrevem uma transição entre hiperativação — medo, tensão, raiva, urgência — e respostas de desligamento, com entorpecimento, analgesia e afastamento emocional. Estudos psicofisiológicos, porém, não são uniformes: frequência cardíaca, condutância da pele e reflexo de sobressalto podem variar entre estudos e pessoas.[3,8] Portanto, “luta ou fuga” e “congelamento/desligamento” são mapas clínicos úteis, não medições perfeitas do estado interno.

E os neurotransmissores?

Sistemas de glutamato, GABA, opioides endógenos, serotonina, dopamina, noradrenalina e eixo hipotálamo–hipófise–adrenal são estudados em estresse, trauma, TPB e dissociação. Até o momento, não existe um perfil neuroquímico específico, validado e clinicamente utilizável para episódios dissociativos no TPB. Estudos farmacológicos pequenos e hipóteses sobre sistemas opioide e glutamatérgico não autorizam a automedicação nem estabelecem tratamento de rotina.[3,8]

A conclusão científica mais correta é: há sinais de alteração na coordenação de redes cerebrais e respostas de estresse, mas os achados são heterogêneos, predominantemente correlacionais e ainda não constituem biomarcadores diagnósticos.

8. Por que a memória pode falhar?

Para formar uma memória acessível, é preciso prestar atenção, codificar a experiência, integrá-la ao contexto e recuperá-la posteriormente. Durante dissociação intensa, essas etapas podem ficar prejudicadas. Estudos experimentais encontraram dificuldades em condicionamento emocional, inibição e memória de trabalho durante estados dissociativos no TPB.[10,11]

Isso ajuda a compreender por que alguém pode lembrar o começo e o fim de uma discussão, mas não a sequência intermediária. Entretanto, três cuidados são fundamentais:

  1. uma lacuna subjetiva não comprova amnésia dissociativa;
  2. memória humana é reconstrutiva, mesmo sem dissociação;
  3. perguntas sugestivas podem alterar relatos e aumentar certeza sem aumentar precisão.

Na clínica, o objetivo não é forçar recordações. É reconstruir o contexto com cautela, registrar o que é conhecido e desconhecido e avaliar explicações alternativas.

9. Dissociação, psicose e paranoia: como diferenciar?

A distinção nem sempre é simples, e os fenômenos podem coexistir.

AspectoDissociaçãoPsicosePânico intenso
Experiência centralDesconexão de si, corpo, ambiente, emoção ou memóriaAlterações marcadas da percepção, pensamento e crenças sobre a realidadeOnda de medo ou desconforto com sintomas físicos e ameaça iminente
Teste de realidadeFrequentemente preservado na despersonalização/desrealização: “parece irreal, mas sei que é uma sensação”Pode estar comprometido, com convicção delirante ou interpretação pouco corrigívelEm geral preservado, embora exista medo de morrer, enlouquecer ou perder o controle
Relação com estresseComum e muitas vezes imediataVariávelAtaque costuma atingir pico rapidamente
Memória/identidadePode haver nebulosidade, lacunas e estranhamento de siNão são necessárias para psicosePode haver sensação de irrealidade, mas grandes lacunas pedem investigação
CondutaAterramento, segurança e avaliação contextualAvaliação psiquiátrica; urgência se houver risco ou desorganizaçãoAvaliação clínica, regulação fisiológica e tratamento do pânico

No TPB podem ocorrer ideias paranoides transitórias e experiências psicóticas breves, sobretudo sob alta ativação afetiva. Ouvir vozes também não separa automaticamente psicose e dissociação. É preciso examinar conteúdo, duração, insight, organização do pensamento, uso de substâncias, humor, trauma, funcionamento longitudinal e sinais neurológicos.

Sintomas persistentes, desorganização importante, incapacidade de cuidar de si, agitação grave ou comandos de autoagressão requerem avaliação urgente.

10. O que mais precisa ser considerado no diagnóstico diferencial?

Uma avaliação completa deve considerar:

Novos episódios com perda de consciência, convulsões, fraqueza, alteração da fala, confusão prolongada, febre, intoxicação, queda ou lesão exigem avaliação médica imediata.

11. Como avaliar clinicamente?

Não existe exame de sangue, ressonância ou questionário capaz de confirmar sozinho a dissociação no TPB. A avaliação combina entrevista clínica, história longitudinal, observação, informações complementares quando autorizadas e exclusão de causas alternativas.

Perguntas úteis incluem:

Instrumentos como a Dissociative Experiences Scale (DES-II) podem rastrear dissociação-traço; a Dissociation-Tension Scale (DSS/DSS-4) e a Clinician-Administered Dissociative States Scale (CADSS) avaliam estados dissociativos; a Cambridge Depersonalization Scale aprofunda despersonalização; e entrevistas estruturadas como a SCID-D auxiliam no diagnóstico de transtornos dissociativos.[3,12] São auxiliares, não substitutos do julgamento clínico. Pontuações podem ser influenciadas por trauma, ansiedade, compreensão dos itens e contexto.

Um diário breve pode registrar gatilho, intensidade de 0 a 10, início e término aproximados, sinais precoces, memória, estratégia utilizada e resultado. O objetivo é reconhecer padrões, não vigiar ou culpabilizar.

12. Qual é a relação com autoagressão e suicídio?

A dissociação pode aumentar o risco de diferentes maneiras: reduzir a percepção de dor, estreitar a consciência das consequências, produzir sensação de não estar vivo ou intensificar a urgência de “voltar a sentir”. Revisões encontram associação entre maior dissociação, maior gravidade do TPB, autoagressão e pior funcionamento, mas associação não significa que toda pessoa dissociada irá se ferir.[3,5]

Algumas pessoas descrevem a autoagressão como tentativa de interromper entorpecimento ou desrealização. Essa função precisa ser compreendida sem normalizar o comportamento. O plano terapêutico deve desenvolver alternativas sensoriais e comportamentais seguras, tratar os fatores que antecedem o episódio e avaliar risco suicida de forma direta.

13. O que fazer durante um episódio?

O primeiro objetivo é segurança e reconexão gradual com o presente. Não existe técnica universal; algumas pessoas melhoram com atenção sensorial, enquanto outras ficam mais ativadas ao focar o corpo.

Para quem está dissociando

  1. Interrompa atividades de risco. Não dirija, opere máquinas, nade ou permaneça em altura.
  2. Nomeie o estado: “Estou tendo uma sensação de desconexão; ela é intensa, mas posso observar o que acontece.”
  3. Oriente-se: diga em voz alta seu nome, a data, o lugar e o que ocorreu antes do início.
  4. Use sentidos de modo simples: descreva cores e formas; toque uma superfície texturizada; perceba os pés apoiados; escute sons externos.
  5. Use temperatura segura: segure um objeto fresco ou lave o rosto com água confortável. Evite gelo diretamente na pele e qualquer estratégia dolorosa.
  6. Faça movimentos deliberados: pressione os pés no chão, caminhe devagar ou mova as mãos acompanhando visualmente.
  7. Respire sem forçar. Alongar levemente a expiração pode ajudar; respirações profundas e rápidas podem piorar tontura, pânico ou desrealização.
  8. Contate alguém combinado no plano de crise, se isso for seguro.

Para quem acompanha

Depois do episódio, descanso, hidratação e registro objetivo podem ajudar. Discussões delicadas e decisões irreversíveis devem aguardar a recuperação da orientação e do julgamento.

14. Como prevenir e construir um plano individual?

Um plano útil é específico e ensaiado fora da crise. Pode conter:

Regularidade do sono, redução de substâncias, alimentação adequada, atividade física possível, rotina e manejo de conflitos não “curam” dissociação, mas reduzem vulnerabilidades que elevam a ativação.

15. Qual é o tratamento baseado em evidências?

A diretriz da American Psychiatric Association recomenda que pessoas com TPB recebam psicoterapia estruturada, voltada às características centrais do transtorno e conduzida com formulação e objetivos compartilhados.[13] Para dissociação, o tratamento costuma ter quatro eixos.

1. Psicoeducação e monitoramento

Nomear o fenômeno reduz medo e vergonha. Identificar gatilhos, sinais precoces e consequências permite intervir antes do desligamento intenso. O terapeuta precisa monitorar dissociação dentro da sessão, pois a pessoa pode parecer calma enquanto perdeu capacidade de processar o conteúdo.

2. Regulação emocional e aterramento

A Terapia Comportamental Dialética (DBT) ensina atenção plena, tolerância ao mal-estar, regulação emocional e efetividade interpessoal. Técnicas precisam ser treinadas quando a pessoa está regulada e adaptadas ao nível de ativação. Aterramento não é punição nem prova de força de vontade; é uma forma de aumentar contato com o aqui e agora.

3. Integração de experiência, identidade e relações

Tratamento Baseado em Mentalização (MBT), Psicoterapia Focada na Transferência (TFP), Terapia do Esquema e manejo psiquiátrico generalista estruturado possuem evidência para o TPB como um todo.[3,13] Elas trabalham, por caminhos diferentes, reconhecimento de estados mentais, continuidade do self, padrões relacionais e regulação. Não há base para declarar que uma delas é universalmente superior para todo episódio dissociativo.

4. Tratamento do trauma, quando indicado

Quando há TEPT comórbido, tratamentos focados no trauma podem ser considerados por profissional treinado, com avaliação de segurança, risco, capacidade de permanecer presente e plano para manejar dissociação. Ensaios com DBT-PTSD e DBT combinada à exposição prolongada indicam que trauma pode ser tratado em pacientes complexos e com TPB, sem que o diagnóstico, por si só, seja motivo para adiamento indefinido.[14–16]

Isso não significa iniciar exposição sem preparo ou aplicar o mesmo protocolo a todos. Significa substituir exclusão automática por decisão individual, colaborativa e baseada em risco-benefício.

16. Dissociação pode interferir na terapia?

Sim. Aprender em psicoterapia exige atenção, contato emocional tolerável, memória e capacidade de relacionar a experiência à vida cotidiana. A dissociação intensa pode reduzir esses processos. Estudos encontraram associação entre dissociação mais grave e menor resposta a DBT ou psicoterapia, e um estudo experimental mostrou menor aprendizagem emocional durante estados dissociativos.[3,11,17,18]

Isso não quer dizer que a pessoa é “resistente” ou incapaz de melhorar. Quer dizer que a dissociação deve se tornar alvo explícito do tratamento. Podem ajudar:

Estudos recentes continuam investigando como dissociação-traço e dissociação de estado influenciam resultados imediatos, seguimento e autoagressão. A relação não é simples nem determinística.[19]

17. Existe medicamento para dissociação no TPB?

Não há medicamento aprovado especificamente para dissociação no TPB, nem farmacoterapia que trate de forma confiável os sintomas centrais do transtorno. A APA recomenda que, quando usados, medicamentos sejam adjuvantes à psicoterapia, direcionados a um sintoma-alvo mensurável, por tempo definido, com revisão periódica de eficácia e efeitos adversos.[13,20]

Pequenos estudos exploraram diferentes substâncias para tensão, analgesia ou dissociação, mas a evidência é insuficiente para uso rotineiro. Comorbidades como depressão, transtorno bipolar, TEPT, ansiedade, TDAH ou transtorno por uso de substâncias podem exigir tratamento próprio — e isso deve ser decidido por médico após avaliação completa.

Não se deve iniciar, interromper ou modificar psicofármacos com base em conteúdo educativo. Sedação, intoxicação, abstinência e interações medicamentosas também podem parecer dissociação e precisam ser investigadas.

18. O que familiares e parceiros precisam compreender?

A postura mais útil combina validação e limites. Validar é reconhecer que a experiência é real e dolorosa; não significa concordar com toda interpretação ou aceitar agressão.

Frases úteis:

Evite:

Depois, combinem responsabilidades concretas: reparar danos, revisar o plano, proteger crianças, finanças e direção, e procurar tratamento. Compreensão não elimina limites; limites seguros não exigem desumanização.

19. Mitos frequentes

“Dissociar é ter dupla personalidade.”

Não. Dissociação é um fenômeno amplo. TDI é um diagnóstico específico, com critérios próprios. A maioria das pessoas com episódios dissociativos no TPB não tem TDI.

“Se ela lembra de uma parte, então fingiu o restante.”

Não. Atenção e codificação podem oscilar. Ao mesmo tempo, qualquer relato de amnésia deve ser avaliado, e não aceito automaticamente como dissociativo.

“A pessoa perde totalmente a responsabilidade.”

Não necessariamente. A capacidade varia conforme intensidade, consciência e contexto. Segurança, compreensão e responsabilização podem coexistir.

“Dissociação é psicose.”

Não são sinônimos. Podem se sobrepor e exigir avaliação diferencial.

“É preciso recuperar todas as memórias para melhorar.”

Não. Tratamentos responsáveis priorizam segurança, funcionamento e integração; não forçam lembranças nem pressupõem que toda imagem mental seja registro histórico.

“Grounding sempre funciona.”

Não. Técnicas são individualizadas. Foco corporal, olhos fechados ou respiração profunda podem piorar alguns estados. O plano deve ser testado de maneira segura.

20. Prognóstico: é possível melhorar?

Sim. Sintomas do TPB e manifestações dissociativas podem diminuir com tratamento. Em seguimento longitudinal, redução de despersonalização e desrealização esteve associada à recuperação global do TPB.[3] O percurso, porém, não é linear. Estresse, perdas, conflitos, trauma, privação de sono ou uso de substâncias podem reativar episódios.

Sinais de progresso incluem perceber o início mais cedo, reduzir duração e intensidade, manter segurança, recordar melhor o que ocorreu, pedir ajuda antes da crise e retomar atividades com menos prejuízo. O objetivo não é prometer ausência imediata de sintomas, e sim ampliar presença, escolha, continuidade e qualidade de vida.

Conclusão

Episódios dissociativos no TPB são estados reais, frequentemente vinculados a estresse intenso, nos quais funções normalmente integradas — percepção, emoção, memória, corpo, identidade e consciência — podem se desconectar parcialmente. Eles não definem toda pessoa com TPB, não equivalem a psicose ou TDI e não devem ser usados como explicação automática para qualquer esquecimento ou comportamento.

A formulação mais consistente com as evidências é biopsicossocial: vulnerabilidades individuais, aprendizagem, relações, trauma em parte dos casos, sono, substâncias, contexto e sistemas cerebrais de estresse interagem. A neurociência oferece pistas, não um teste diagnóstico. A psicoterapia estruturada permanece o centro do tratamento; manejo da dissociação, segurança, habilidades de presença e tratamento cuidadoso de comorbidades e trauma podem melhorar o funcionamento.

Compreender dissociação não significa retirar responsabilidade nem impor culpa. Significa criar condições para que a pessoa volte ao presente, reconheça padrões, faça escolhas mais seguras e construa uma experiência de si menos fragmentada.

Sobre o autor

Jandré Lopes

Psicólogo — CRP 06/215909

Atuação em Psicopatologia e Psicoterapia Baseada em Evidências, com interesse clínico em Transtorno de Personalidade Borderline, transtornos do humor, regulação emocional, prevenção do suicídio e abordagens como DBT, TCC e CAMS.

Referências

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